Como funciona a Memória? Entenda como você “edita” o seu passado

Imagem sobre memória, desenhada em estilo de gravura e focando nos processos biológicos. Ela ilustra como a memória de trabalho manipula a informação antes de transferi-la para a memória de longo prazo, onde ocorre a reconsolidação.

Bruno Marinho de Sousa

Todo mundo tem ideia do que é Memória, mas como ela funciona e os processos de memória envolvidos já é outra história….

Sabe aquela memória de infância que você adora e tem um carinho especial? Ou aquele “fora” que você tomou anos atrás e até hoje morre de vergonha da pessoa? Sinto te informar: você provavelmente está inventando metade da história.

A maioria das pessoas acha que a Memória é como um serviço de streaming: a gente acessa, escolhe o filme e dá play. Depois do play achamos que estamos revendo os fatos, igualzinho aconteceram: sons, cheiros, pessoas, cores…

Sinto te informar novamente: isso não faz sentido para a Psicologia e para as Neurociências.

Definindo Memória

A Memória, por definição, envolve:

AQUISIÇÃO, FORMAÇÃO, CONSERVAÇÃO E EVOCAÇÃO.

Então não é só guardar um monte de fatos. A Memória é como o cérebro aprende a filtrar o que importa, selecionar, aprender sobre a informação e consolidar isso nas nossas redes neurais dentro do encéfalo.

Quero que guarde essa palavra: RECONSOLIDAÇÃO.

Existem vários tipos de Memória. Abaixo eu as defino de maneira bem simples.

  • Curto Prazo: é onde mantemos a informação ativa enquanto a manipulamos. Exemplo: você lendo esse texto.
  • Longo Prazo: é o que geralmente chamamos e entendemos por Memória no senso comum. É onde guardamos o nosso conhecimento de si e do mundo. Ela divide-se em duas categorias:

    1. Declarativa (Explícita) – “saber que“, você consegue evocar e verbalizar sobre o que sabe. Pode ser:
    Episódica – relacionadas a eventos específicos, como situações que vivenciou, pra onde viajou, seu aniversário de 10 anos.
    Semântica – conhecimentos gerais, fatos, conceitos, como Brasília é a capital do Brasil, o que é uma cadeira.

    2. Não-Declarativa (Implícita) – “saber como“, você consegue recordar, fazer algo com ela, mas é difícil verbalizar sobre. Exemplos: andar de bicicleta, dirigir.

Ainda existe um outro tipo de Memória que é pouco comentada, a Memória Sensorial. Basicamente ela é o primeiro contato com algo, dura milissegundos. Pode ser apenas a retenção imediata de uma imagem (icônica) ou som (ecóica).

Foto por fish socks em Pexels.com

A Memória é uma cozinha, não um depósito ou arquivo

Agora você sabe que nós não apenas “guardamos” informações e alguns tipos de memória. Na verdade o que fazemos é manipular as informações. Então vamos conhecer a grande sacada do psicólogo e cientista Allan Baddeley, que explicou desenvolveu o conceito de Memória de Trabalho.

Memória de trabalho refere-se ao sistema, ou sistemas, considerados necessários para manter informações ativas na mente enquanto se realizam tarefas complexas, como raciocínio, compreensão e aprendizagem (Baddeley, 2010).

A Memória de Trabalho é formada por vários elementos. Para facilitar, imagine uma cozinha de restaurante, daquelas organizados. Vou citar o termo do Memória de Trabalho e o que esse componente faz se fosse numa cozinha:

  • O Executivo Central é a (o) Chef (decide o que priorizar, cardápio, ordem).
  • O Laço Fonológico é a lista de ingredientes falada em voz alta.
  • O Esboço Visuoespacial é a bancada onde se organiza tudo o que .
  • E o Buffer Episódico é a receita, que mistura o que está acontecendo agora com o que você já sabia antes, para criar o prato.

Continuando no exemplo de cozinha, olha só como é na prática, usando como fazer Omelete Recheado:

  1. Laço Fonológico (Ouvir): Você fica repetindo mentalmente: “Dois ovos, queijo, presunto e sal… dois ovos, queijo, presunto e sal”, para não esquecer os ingredientes enquanto caminha até a geladeira. (Você talvez faça isso sem perceber).
  2. Esboço Visuoespacial (Ver/Localizar): Você “enxerga” mentalmente onde estão os ingrediente, onde está a frigideira no armário e planeja o espaço na bancada para não derrubar nada, nem faltar algo.
  3. Executivo Central (O Chef): Você decide a ordem das ações. “Primeiro quebro os ovos, depois bato, depois ligo o fogo”. Ele coordena para você não tentar colocar o queijo antes de quebrar o ovo.
  4. Buffer Episódico (A Receita): Você integra tudo isso com o que já sabe da sua Memória de Longo Prazo (como “fogo alto queima o ovo rápido demais”). É aqui que a experiência passada e a ação presente se misturam para o prato não virar um desastre.

Nesse exemplo, a Memória de Trabalho não está apenas “guardando” o que é um ovo, ela está operando as informações em tempo real para entregar o resultado final.

A Memória e a Reconsolidação

Beleza, já aprendeu muito sobre memória. Agora vamos voltar a palavrinha que pedi para guardar: RECONSOLIDAÇÃO.

Aqui está o ponto de virada (o plot twist do seu cérebro): Lembrar é reconstruir. Toda vez que você traz uma lembrança do seu “depósito” (Memória de Longo Prazo) para a sua “cozinha” (Memória de Trabalho), o arquivo fica aberto e instável.

Nesse momento a memória que trouxe se torna editável. Se você está feliz hoje enquanto lembra de algo triste do passado, você “contamina” aquela memória com um tom mais leve. Nas Neurociências, chamamos isso de Reconsolidação. Na Psicologia Clínica, é o famoso termo da moda: “ressignificar“.

Então quando se lembra de algo, você tem um espaço para trabalhar essa memória. É onde a Psicoterapia vai trabalhar. Não necessariamente importa o que te aconteceu, mas como você lida hoje com o que te aconteceu. A forma como se lembra é fundamental para esse processo.

E será que você tem problema de Memória?

Se a sua Memória de Trabalho está cheia de notificações de celular, abas abertas, preocupações com coisas reais ou imaginárias, ela vira um caos. A informação chega com ruído e o seu Hipocampo (o botão de gravar do cérebro) não consegue consolidar a informação de maneira adequada.

Para facilitar, imagine que quando sua Memória de Trabalho está cheia, é como se estivesse criando uma imagem de baixa resolução, com chiado e ainda o som ruim. Qual o resultado? O aprendizado vira fumaça, não forma memórias adequadas. Então você vai se lembrar do quê se não formou uma memória adequada???

Por isso um monte de gente fala que tem problema de Memória, mas na verdade tem é problema de Atenção e mente sobrecarregada.

Eu sei que é difícil por em prática o que vou falar. Mas vou dizer mesmo assim:

Quer melhorar sua Memória? Cuide da sua Atenção, durma melhor, faça Higiene Digital, Medite, tenha Bons Relacionamentos e tenha hábitos que promovam sua Saúde Física e Mental, durma melhor

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Referências & sugestões
  • Gazzaniga & HeathertonCiência Psicológica.
  • Kandel (org.)Princípios de Neurociências.
  • Ivan IzquierdoMemória.
  • SternbergPsicologia Cognitiva.
  • MatlinPsicologia Cognitiva.
  • Oliver SacksEu me Esqueci que Inventei Isso.

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Publicado por Bruno Marinho de Sousa

Doutor em Ciências (USP), Psicologia Clínica e Divulgador Científico. Aqui eu transformo Psicologia e Neurociências em linguagem acessível.

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