Bruno Marinho de Sousa
Você está igual eu, com um celular mais velho, bateria ruim, mas não ruim a ponto de ter que trocar, mas ruim a ponto de te passar raiva de vez em quando. Daí você está diante de uma vitrine, um monte de celulares novinhos brilhando ali na sua frente. Você entra, começa a mexer nos celulares expostos. De um lado, aquele da marca confiável, preço bom, com tudo que precisa, mas sem tanta potência. Do outro, o objeto de desejo: caro, potente, o faz tudo que precisa e muito mais.
Nesse exato momento começa um debate intenso… dentro da sua cabeça. Duas vozes falam, dialogam. Uma voz fala da prudência financeira, do que realmente precisa num celular; a outra projeta a potência, a performance e até as qualidades que nem vai usar, mas estarão lá. Você faz contas, projeta o futuro, pondera riscos.
Parabéns: você está PENSANDO.
Esse diálogo interno, essa manipulação de conceitos, ideias e símbolos, é o Pensar. Grosseiramente falando, é isso que as IAs tentam imitar. Agora vamos entender o Pensamento.
O Mapa do Caos Mental
Se o cérebro recebe dados pela Percepção, filtra pelo foco da Atenção e os arquiva na Memória, o Pensamento é o que fazemos com esses arquivos. Na Psicologia Cognitiva, o Pensamento não é um evento isolado, é o
Processo de manipulação de Representações Mentais: mapas internos que permitem trabalhar com a realidade sem que o objeto esteja presente.
Basicamente, o Pensamento é a “linguagem da mente”, como diz Gazzaniga no seu livro. Ele se divide em dois tipos de ferramentas:
- Representações Analógicas: Imagens mentais. Se eu peço para você imaginar o rosto de quem você ama, seu cérebro projeta uma “foto” interna.
- Representações Simbólicas: Conceitos abstratos. Ideias como “LIBERDADE” ou operações como “somar” não têm uma foto correspondente; são códigos mentais puros.
Agora olha porque muita gente evita pensar. O ato de Pensar gasta muita energia, cansa. Parece que corremos uma maratona após quebrar muito a cabeça. Então por isso acabamos usando muitos atalhos mentais, ou heurísticas, para agilizar o Pensar. E muitas vezes erramos…
“Em estado basal, o cérebro pode consumir 350 calorias em 24 horas, isso é, 20% do que costumamos gastar por dia” (fonte: El Pais)
Os Trilhos do Raciocínio
O Pensamento funciona com uma lógica, que é bastante estudada por Psicólogos e Neurocientistas. Para não descarrilar no caos, o pensamento usa três engrenagens principais:
- A Categorização: O cérebro odeia o novo. Ele precisa enfiar tudo em pastas: “cachorro”, “imposto”, “perigo”. Sem isso, morreríamos de exaustão tentando processar o que é uma maçã cada vez que olhássemos para uma.
- A Tomada de Decisão: Adoramos nos vender como seres lógicos, mas somos dirigidos pela emoção. Antes do veredito racional, o corpo envia um Marcador Somático, uma “pontada” física baseada em experiências passadas. A lógica serve, muitas vezes, apenas para justificar o que o corpo já decidiu.
- O Raciocínio: Aqui o pensamento tem objetivo claro. Ele corre por dois trilhos:
- Dedutivo (A Lógica Implacável): Se a regra é “Celular sem bateria não liga” e o fato é “Meu celular está sem bateria”, a conclusão é matemática e fria: ele não ligará.
- Indutivo (A Voz da Experiência): É o pensamento da rua. “O sol nasceu todos os dias até hoje, logo, provavelmente nascerá amanhã”. É uma aposta educada baseada em padrões. O problema? Muitas vezes apostamos (Indução) achando que estamos provando (Dedução).
A Ilusão da Lógica e o Equilíbrio Social
O nosso Pensamento não é apenas biológico ou “mental”; ele é esculpido, moldado, pela cultura: a Neuroplasticidade Cultural. Se você cresceu no Ocidente, seu pensamento tende a ser analítico (focado no objeto e ignorando o o contexto), buscando uma lógica “formal”; no Oriente, tende a ser holístico (focado na relação entre o objeto e seu contexto)¹. Também nossa Linguagem molda como pensamos.
A sociedade fornece os esquemas mentais. Quando algo novo aparece, nós tentamos Assimilar na estrutura que já temos. Se não cabe, precisamos nos esforçar para Acomodar a informação em um novo lugar.
Quem falou muito disso foi Piaget, caso queira se aprofundar: clique aqui.
Muitas vezes, o que você chama de “meu pensamento”, aquela ideia que você acha que você pensa, é apenas um eco do seu grupo social. Lembra que o cérebro gasta muita energia pra funcionar?
Então ele prefere a Conformidade à lógica para poupar energia e evitar a exclusão da “tribo”. do nosso grupo. É por isso que é tão fácil manipular multidões e tão difícil convencer um indivíduo isolado: no grupo, entramos em “efeito manada” e desligamos o senso crítico. Só pensar em política…
Então o pensamento…
Lembra daquela indecisão com os celulares? Aquela voz não era apenas e exclusivamente “você”. Era o resultado de um equilíbrio frágil entre seus Marcadores Somáticos (intuição), suas Categorias Culturais (o que te ensinaram a querer/desejar) e sua Economia de Glicose.
Pensar de verdade cansa, dói e consome energia. A maioria de nós apenas reage a padrões pré-instalados. Se você não questionar a origem dos seus pensamentos, você é apenas um passageiro em um veículo sem motorista.
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- O Erro de Descartes, de António Damásio (Para entender a base emocional da razão). Disponível na Amazon.
- Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar, de Daniel Kahneman (Para entender os atalhos da mente). Disponível na Amazon.
- Ciência Psicológica, Michael Gazzaniga e Todd F. Heatherton. Disponível na Amazon.
- Tomada de Decisão, Emoção e o Marcador Somático
- ¹ Nisbett, R. E., Peng, K., Choi, I., & Norenzayan, A. (2001). Culture and systems of thought: Holistic versus analytic cognition. Psychological Review, 108(2), 291–310.
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