O que é a mente?

Bruno Marinho de Sousa

O que é mente? Uma viagem pela ciência psicológica

Já se perguntou o que, afinal de contas, é a Mente? É a nossa consciência? Um conjunto de pensamentos? É apenas o cérebro funcionando? O que acontece na nossa cabeça quando estamos sonhando, lembrando de algo ou sentindo uma emoção forte? A verdade é que a mente é um dos objetos de estudo mais interessantes e, diria, até polêmicos da ciência.

Para a Psicologia, a Mente não é apenas um conceito, mas um objeto de estudo. É o que nos faz ser quem somos, e a ciência psicológica se dedica a desvendar seus segredos. Mas, para isso, ela precisa de uma base sólida, de definições que permitam a pesquisa e a compreensão.

Mas, afinal, o que é a Mente? Seria ela apenas a atividade do nosso cérebro de 1,4 kg de massa cinzenta e uns 86 bilhões de neurônios? Ou algo além, como um “eu” interior separado do corpo?


Afinal, o que é a mente?

Algo comum na Psicologia é definir o objetivo de estudo para deixá-lo operacional, o que quer dizer que a partir disso é possível criar experimentos para testá-lo. Então, para o texto vamos usar a definição do que é Mente usada pela Associação de Psicologia Americana (APA):

A totalidade dos processos conscientes e inconscientes experimentados e desempenhados por um organismo, incluindo pensamento, percepção, emoção, vontade, memória e imaginação. A mente é considerada a instância que capacita a consciência, o raciocínio, a percepção e o julgamento, distinguindo-se, mas em constante interação, com o corpo.

A Mente então se refere ao conjunto de processos e experiências internas que ocorrem em nós, mas nem sempre são visíveis externamente. Em outras palavras, isso quer dizer que além dos comportamentos observáveis, a psicologia se interessa pelas experiências subjetivas – percepções, pensamentos, memórias, sonhos, emoções, dores e prazeres – fenômenos dos quais só o próprio indivíduo tem plena consciência.

imagem mostrando resultados de exames de PET Scan do cérebro.
Foto por Anna Shvets em Pexels.com

No uso comum, você e eu usamos “mente” para falar da nossa própria consciência, como se o pensar e sentir viessem de um “eu” dentro da cabeça. E por isso é muito comum culturas e religiões imaginarem a mente como algo separável do corpo (a ideia de um espírito ou alma imaterial).

Essa ideia leva a um dualismo mente-corpo, a ideia de que mente e corpo são coisas separadas. Até mesmo no passado a Psicologia chegou a ser definida como ciência “da alma” ou “da mente”. Mas conforme ela se firmou dentro da ciência, prevaleceu uma definição mais completa: Psicologia é a ciência que estuda a mente e o comportamento. Ou seja, estudar a mente hoje implica entender processos cognitivos (pensamento, memória, linguagem, etc.), emoções e motivação, bem como suas bases biológicas, sem separar de forma radical o mental do físico.

E uma coisa muito importante a ser enfatizada é que nem tudo na nossa Mente é consciente. Freud (aquele do charuto na mão), enfatizou bastante isso dentro da Psicanálise. Aqui para o foco do blog, é interessante você entender que o processamento mental, por exemplo, sua Memória, ocorre fora do nosso conhecimento consciente. O que vamos ter acesso é ao resultado de muitos processos cognitivos. Imagine um pão de queijo! Você não vai ter acesso a como sua Mente e seu cérebro fizeram para resgatar essa imagem, somente terá a Consciência do pão de queijo na sua mente…

Então já começa um pouco de complicação, Mente e Consciência não são sinônimos porque não são a mesma coisa… A mente abrange tanto o consciente quanto o inconsciente, integrando uma complexa atividade de processamento de informações pelo sistema nervoso. E com o avanço da Psicologia, surgiu a Psicologia e a Ciência Cognitiva, e a Mente passou a ser entendida, de forma simplificada, como o fluxo de informações através do sistema nervoso, em outras palavras: padrões de atividade e processamento de dados pelo cérebro (leia mais em psychologytoday). Essa mudança permitiu tornar a Mente mais operacional, como falei antes, podendo ser estudada de de forma objetiva, sem necessidade de evocar entidades separadas, ou seja, a Mente é o que o cérebro faz.


Mente e cérebro são a mesma coisa?

Essa questão poderia me render centenas de artigos para o blog. Mas como não é o foco, nem sou capaz de eliminar essa dúvida, vou tomar um partido aqui. Alguns vão considerar reducionista, mas é como eu entendo a questão.

A dúvida “mente e cérebro são a mesma coisa?” retoma o antigo antigo problema mente-corpo na filosofia e ciência em geral. Durante muito tempo, influenciados especialmente por Descartes e outros, pensadores viram mente (ou “alma”) e corpo como substâncias separadas.

Entretanto, as descobertas científicas dos últimos séculos, especialmente de estudos da Neurologia e da Psicologia Experimental mostraram que mente e cérebro estão intimamente interligados. Isso leva muitos cientistas a defenderem que são apenas duas formas de descrever o mesmo fenômeno. No blog Psicologia Catalão eu trouxe um pouco dessa questão do dualismo e que nosso corpo e nossa mente são lados de uma mesma moeda, partes de um todo inseparável que é o ser humano.

Do ponto de vista das Neurociências, a mente surge do funcionamento do Cérebro. O neurocientista Michael Gazzaniga, por exemplo, afirma que

“o que chamamos comumente de mente é um grupo de funções desempenhadas pelo cérebro”,

e que processos cerebrais estão por trás de todo o nosso comportamento, das ações simples, como andar e comer, até nossas mais complexas atividades cognitivas, como pensar, falar e criar arte. Em outras palavras, não existe Mente funcional sem o cérebro: pensamentos, lembranças e emoções correspondem a padrões de ativação de neurônios e redes cerebrais.

Evidências dessa relação vêm de inúmeras pesquisas de caso e estudos clínicos, como os de Broca, Wernicke. Mas aqui vou citar o famoso caso do operário Phineas Gage.

Leia mais em: Saúde Mente-Corpo

Em 1848, Phineas sofreu um acidente no qual uma barra de ferro atravessou seu crânio, causando lesão grave no lobo frontal do cérebro. Ele sobreviveu, porém sua personalidade mudou drasticamente após o acidente, passou de responsável e amigável para impulsivo, agressivo e socialmente inadequado. Essa mudança de comportamento drástica e rápida forneceu uma prova inicial de que alterações físicas no cérebro podem alterar a “mente” (personalidade, emoções, conduta). Desde então, muitos outros casos e estudos controlados reforçaram essa conclusão: por exemplo, lesões ou doenças neurológicas que afetam memória, linguagem ou emoção demonstram como diversos aspectos do funcionamento da Mente dependem do processamento de informações de regiões cerebrais específicas.

Caso Phineas Gage foi amplamente etudado por António e Hanna Damásio, junto com seus colaboradores. Fonte: blog Psicologia Catalão, Imagem: The vintage news.

Hoje, a visão científica predominante é monista: mente e cérebro são parte de um mesmo sistema, não são entidades independentes. A mente seria o nível de descrição funcional (processos mentais, experiências subjetivas), enquanto o cérebro é o nível de descrição estrutural/biológico. Numa visão bem grosseira, o cérebro seria o hardware e a Mente seria o software.

Em resumo, a divisão acaba sendo didática e para fins de estudo (processos psicológicos x processos biológicos). Mas na prática formam a mesma realidade integrada e funcional. O cérebro gera a atividade mental e a Mente influencia o cérebro, num ciclo constante.


A Conexão Mente-Corpo na Prática: Duas Faces da Mesma Moeda

Provavelmente você já ouviu falar do efeito placebo? Ele é uma das maiores evidências de como a mente e o corpo estão diretamente relacionados. Por exemplo, em estudos clínicos, uma pessoa que recebe uma pílula de farinha e açúcar (sem princípio ativo) pode relatar alívio de dor ou melhora de sintomas simplesmente porque acredita que está tomando um remédio. A expectativa e a crença da mente são tão poderosas que disparam reações químicas no cérebro, liberando substâncias como a dopamina, que causam uma melhora real no corpo. (Leia mais aqui).

E essa relação é uma via de mão dupla. Outras pesquisas mostram que a relação entre mente e corpo é muito mais integrada do que se imaginava. Aqui é fácil até de você ter noção: Emoções como ansiedade e alegria não se restringem à cabeça, elas desencadeiam reações físicas mensuráveis, como alterações hormonais, variações na frequência cardíaca e até mudanças na microbiota intestinal. Se você já sofreu de ansiedade forte, deve ter sentido seu coração acelerado, boca seca… tudo isso porque sua mente imaginou um perigo que fez seu corpo reagir.

E se quer mais um exemplo, basta lembrar de uma noite mal dormida. Isso provavelmente afetou seu humor e a atenção, ou como a prática de exercícios físicos regulares melhora memória, concentração e reduz sintomas de depressão.

Essa relação de interdependência reforça o que falei da visão monista: não existe mente sem corpo, nem corpo plenamente saudável sem uma mente em equilíbrio. Cuidar da mente é cuidar do corpo, e cuidar do corpo é também nutrir a mente.


Resumindo…

Entender o que é a mente vai além da curiosidade teórica: isso nos permite reconhecer que nossos pensamentos, emoções e escolhas são processos reais, com efeitos diretos sobre o cérebro e o corpo. A Mente funciona como um fluxo constante, não algo estático. Ela nos permite aprender, sofrer, criar e transformar.

Se mente e corpo são duas faces da mesma moeda, cabe a cada um de nós cultivar práticas que favoreçam esse equilíbrio: atenção plena, bons hábitos de saúde, autocompaixão e, quando necessário, a busca por ajuda profissional. Afinal, compreender a mente é também o primeiro passo para cuidar melhor de nós mesmos.

Algumas Referências para aprender mais:

Publicado por Bruno Marinho de Sousa

Doutor e Mestre pela USP, Especialista pela PUC, Psicólogo pela UFU.

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