Bruno Marinho de Sousa
Biologia, experiências de vida e cultura afetam a Percepção
Você já parou para pensar que a forma como você enxerga o mundo é diferente da forma como outra pessoa o vê? Não estou falando apenas de opiniões, mas de enxergar mesmo: cores, formas, distâncias. E isso está diretamente relacionado com nossos órgãos sensoriais, nosso cérebro e, para surpresa de algumas pessoas, a nossa cultura!
A percepção é muito mais do que simplesmente ver ou ouvir; é um processo complexo que dá sentido aos estímulos que recebemos, e é aí que as diferenças surgem!
A Percepção: Um olhar além dos sentidos
Uma área que estudou e estuda bastante a Percepção é a Psicofísica, mas ela fica pra outro dia. Aqui é importante você entender que nossos sentidos mais conhecidos: visão, audição, tato, olfato e paladar, funcionam como tipos de antenas que captam informações do ambiente. E vai ser no nosso cérebro que essas informações serão organizadas e interpretadas, transformando-as em algo significativo. Essa “função cerebral” é o que chamamos de percepção. E o mais interessante é que essa interpretação é totalmente pessoal, moldada pela nossa biologia e por nossas experiências de vida.
As Neurociências estudam o nosso cérebro e o sistema nervoso. E estudos na área já mostraram que a percepção é uma função cognitiva de alto nível, complexa e está ligada a habilidades como linguagem e imaginação. Um ramo das neurociências, a Neurociência Cognitiva, investiga como o cérebro processa essas informações por meio da Percepção, influenciando nosso aprendizado e comportamento. Ou seja, a realidade que você experimenta não é uma cópia exata do mundo, mas uma versão única sua, personalizada e moldada pela história de vida e construída pelo seu próprio cérebro.
Como nosso Cérebro “processa” o Mundo
Agora vou falar de uns nomes mais técnicos, mas são bem simples de compreender. Para entender como percebemos, imagine dois caminhos (processos) que a informação segue no seu cérebro:
- Processamento “De Baixo para Cima” (Bottom-Up): Ocorre quando a informação bruta (do ambiente) chega aos seus sentidos. Por exemplo, um barulho alto do nada, uma luz forte inesperada, são captados pelo cérebro sem pensar muito, de forma automática. É a base sensorial da percepção.6
- Processamento “De Cima para Baixo” (Top-Down): Aqui é quando nosso cérebro entra em ação com tudo o que ele já sabe: nossas experiências passadas, expectativas e conhecimento de mundo. O cérebro usa essas informações para interpretar e organizar os dados sensoriais que foram captados pelos sentidos. Aqui já acontece um fenômeno interessante, o nosso cérebro “preenche algumas lacunas” quando a informação é incompleta. Por exemplo, quando você lê uma frase com uma palavra ou letra faltando, seu cérebro usa o contexto para adivinhar qual é a palavra. Olha o exemplo:
“O ga_o mio_ de cima __ te_hado e entrou em __sa.”
Esses dois processamentos da informação não trabalham sozinhos; eles interagem o tempo todo. O que você vê (bottom-up) é interpretado pelo que você sabe e espera do mundo (top-down), criando uma compreensão completa do ambiente.
E tem mais: nosso cérebro é incrivelmente adaptável! Não se já ouviu, ou leu, sobre a Neuroplasticidade. Ela é a capacidade do nosso sistema nervoso de se modificar em resposta ao ambiente. Isso significa que cada nova experiência, cada aprendizado, pode literalmente “remodelar” as conexões neurais envolvidas na forma como percebemos o mundo. É por isso que aprender coisas novas, como um novo idioma, tocar um instrumento, muda nossa cérebro porque pode mudar a forma de interagir com o mundo…
Modelo Mental: Por que nossa Percepção é única
Seu histórico de vida é o principal definidor da sua Percepção. Tudo o que você vivenciou cria um “modelo mental” de como o mundo funciona. Esse modelo é como um mapa que seu cérebro usa para navegar na e pela realidade.
Um exemplo clássico (nem sei se é real), mas vale como exemplo, é o dos primeiros colonizadores da América. Eu lembro de ler, ou assistir alguém falando que quando lá na época das grandes navegações os povos indígenas locais não conseguiam ver os navios à distância. Por quê? Porque navios daquele tipo não faziam parte da realidade deles, do seu “modelo mental”. Eles simplesmente não os percebiam no horizonte, a informação até chegava pelos olhos (bottom-up), mas o cérebro não sabia como processar aquilo (top-down) e ignorava.
Somente quando os navios estavam bem mais perto é que se tornaram visíveis, afinal, era um negócio grande vindo na direção da praia, imagine o estranhamento… Isso mostra como a ausência de um conhecimento prévio pode nos impedir de perceber algo que está bem ali!
Além disso, nossas necessidades, motivações e emoções funcionam como filtros. Se você está com fome, é mais provável que perceba um restaurante. Se quer um sorvete, sua memória, sua atenção, vão achar mais fácil um mercado ou sorveteria. Se está com medo, seu cérebro pode focar em coisas perigosas no ambiente (sons que não conhece, por exemplo). Algumas regiões do cérebro, como a amígdala (ligada às emoções, especialmente o medo) e a ínsula (que processa sensações internas e as integra com emoções) são fundamentais nesse processo.
E se ainda não te convenci, basta olhar as ilusões de ótica. Elas são a prova viva de que nossa percepção não é uma cópia fiel da realidade. Elas “enganam” nosso sistema visual, fazendo-nos ver coisas que não estão lá ou interpretar imagens de forma diferente da “realidade” objetiva. Isso acontece porque nosso cérebro está sempre tentando preencher lacunas e fazer inferências, e às vezes ele “erra” de um ponto de vista objetivo.

Leia mais: Ilusão de Ponzo
A Cultura: A grande mediadora da nossa Percepção
Agora, imagine que, além das nossas experiências pessoais, também herdamos “lentes culturais” nos óculos que usamos para enxergar o mundo. A Cultura em que crescemos influencia profundamente como percebemos o mundo, desde o que notamos até como interpretamos as emoções.
1. Estilos de Pensamento: Holístico vs. Analítico
Cultura é um tema muito pesquisado na Psicologia. E alguns pesquisadores, como Richard Nisbett, descobriram que pessoas de culturas ocidentais (como americanos e europeus) tendem a ter um estilo de pensamento mais analítico. Elas focam no objeto principal, em seus detalhes e categorias. Já as pessoas de culturas orientais (como asiáticos) tendem a ser mais holísticas, prestando atenção ao contexto, às relações e à interdependência entre os elementos (leia mais aqui).
Essa diferença não seria apenas uma preferência, mas se reflete até na forma como nossos olhos se movem! Estudos de rastreamento ocular mostram que japoneses olham mais para o fundo e para as pessoas ao redor em uma cena, enquanto americanos focam mais nos objetos salientes . E o mais surpreendente: essas diferenças já são observáveis em bebês de 12 meses! Mães ocidentais tendem a apontar mais para objetos, enquanto mães orientais enfatizam o contexto, moldando a percepção visual de seus filhos desde cedo. Leia mais aqui.
2. Expressões e Emoções: O Rosto da Cultura
O rosto humano é uma fonte riquíssima de informações sobre o que o outro está sentindo. Mas a forma como expressamos e interpretamos emoções é influenciada pelas “regras de exibição cultural” . Em culturas individualistas (como os EUA), é comum expressar emoções abertamente. Já em culturas coletivistas (como o Japão), a contenção emocional é valorizada para manter a harmonia do grupo .
Isso gera “sotaques” não verbais: somos mais precisos ao julgar expressões faciais de nossa própria cultura . Por exemplo, japoneses dão mais peso à emoção nos olhos, enquanto americanos são mais influenciados pela boca. Se você assiste a animes, sabe disso… Isso pode ser porque, em culturas que valorizam o controle emocional, os olhos são mais difíceis de manipular e, portanto, revelam mais a emoção verdadeira .

3. Além da Visão: Sons e Cheiros
A influência cultural não para na visão. Ela também afeta como percebemos sons e cheiros. A forma como processamos a linguagem, por exemplo, é moldada pela nossa cultura e exposição a diferentes idiomas . Até a familiaridade com a música de uma cultura específica pode mudar como percebemos o “humor” de uma canção .
No olfato, estudos mostram que a familiaridade com um cheiro, muitas vezes ligada a práticas culturais (como o uso de um aroma em alimentos ou cosméticos), influencia nossa percepção e até a agradabilidade desse cheiro. Eu, por exemplo, estranhei demais a comida quando morei em João Pessoa, onde o pessoal usa bastante cominho na comida. Quando fui falar disso com algumas pessoas, elas nem entenderam do que eu falava, é algo tão cultural que nem notamos.
4. Percepção Social: Como Entendemos os Outros
A cultura também molda como pensamos sobre as outras pessoas e suas ações e atitudes. Por exemplo, em culturas individualistas, tendemos a atribuir o comportamento de alguém mais à sua personalidade. Já em culturas coletivistas, focamos mais na situação ou no contexto para explicar o comportamento. Um atleta chinês pode atribuir seu sucesso à equipe e ao treinador, enquanto um americano pode focar em suas próprias habilidades (se quiser, leia mais aqui).
Por que tudo isso importa?
Conhecer como funcionamos nos ajuda a lidar melhor com as demandas do cotidiano e termos uma melhor Agência de Vida, sem contar que ajuda nos relacionamentos. Entender que a Percepção é subjetiva, diretamente influenciada pela cultura, é fundamental num mundo em que os contatos interpessoais estão a um clique. As diferenças podem levar a mal-entendidos na comunicação e até a conflitos. Por exemplo, o contato visual direto, valorizado no Ocidente, pode ser visto como desrespeitoso em algumas culturas asiáticas.
Ao reconhecer que cada um de nós vê o mundo através de óculos com lentes únicas, de acordo com nossas experiências pessoais, cultura e biologia, podemos desenvolver mais empatia, melhorar a comunicação e construir relações mais saudáveis e empáticas. Afinal, entender que o meu “normal” de um pode ser muito diferente do seu “normal” é o primeiro passo para um convívio mais harmonioso e com mais Flexibilidade Cognitiva.
Algumas Referências para aprender mais:
- blog Percepto (contém uma série de textos sobre Percepção e Psicofísica): https://blogpercepto.blogspot.com/p/lista-de-textos.html
- Bottom-up vs. Top-down Processing – OpenPSYC: Introduction to Psychology: http://openpsyc.blogspot.com/2014/06/bottom-up-vs-top-down-processing.html
- Cérebro tem capacidade de se reconfigurar e ser treinado para melhores resultados, acessado em julho 26, 2025, https://jornal.usp.br/radio-usp/cerebro-tem-capacidade-de-se-reconfigurar-e-ser-treinado-para-melhores-resultados/
- Cross-cultural differences in visual perception: https://jecs.pl/index.php/jecs/article/view/673/533
- O papel do contexto na percepção de emoções – ResearchGate, acessado em julho 26, 2025, https://www.researchgate.net/publication/343972040_O_papel_do_contexto_na_percepcao_de_emocoes
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