Origens da Psicologia e Neurociências: O entendimento da Mente e do Cérebro

Bruno Marinho de Sousa

Por que Entender a Mente e o Cérebro Hoje?

Você já se pegou pensando na complexidade de um ato que parece simples, como decidir o seu almoço? Ou, quem sabe, por que aquela música chiclete gruda na sua cabeça, enquanto aquele assunto que você precisar, para uma prova ou trabalho, simplesmente some da memória na hora H? E por que certas emoções parecem tão incontroláveis? E nossa consciência, o que é e como funciona???

Antigamente se questionar sobre nosso funcionamento mental já intrigava filósofos e cientistas da mente. E no século XXI, essas perguntas ainda continuam mais atuais que nunca. E elas são fundamentais nas duas áreas que são e serão o foco desse blog: a Psicologia e as Neurociências.

Entender como nossa mente e cérebro funcionam não é apenas uma curiosidade acadêmica, que fica relegada às universidades. Entender a mente e o cérebro é uma ferramenta poderosa para o autoconhecimento, para lidar com o estresse do dia a dia, para melhorar nossos relacionamentos e, em última instância, para viver uma vida mais plena e consciente. 

A Psicologia e as Neurociências se dedicam a desvendar os mistérios do comportamento humano e dos processos mentais. E hoje elas se entrelaçam, se misturam, revelando uma tapeçaria rica e complexa do que nos torna humanos.

Origens Históricas Distintas: Da Filosofia ao Laboratório

Para entender a Psicologia e as Neurociências é importante compreender a história delas. E com isso fica possível até entender porque hoje elas se entrelaçam tanto.

Por Desconhecido – Weltrundschau zu Reclams Universum 1902, Domínio público, Fonte: Wikipedia

A Psicologia, como ciência, tem suas raízes na filosofia. Por muitos séculos, filósofos gregos como Platão e Aristóteles já questionavam sobre a alma, a percepção e o pensamento. Mas o grande marco oficial que a tirou do campo da especulação e a trouxe para o rigor científico foi a fundação do primeiro laboratório de Psicologia Experimental por Wilhelm Wundt, em Leipzig, na Alemanha, no ano de 1879. Wundt e seus alunos buscavam decompor a mente em seus elementos mais básicos, usando métodos controlados para estudar a experiência consciente. Era o “nascimento” formal da Psicologia como uma disciplina autônoma, buscando medir e analisar o que antes era intangível.

Wilhelm Wundt com pesquisadores no laboratório da universidade. Fonte: Wikipedia

Detalhe: o nascimento da Psicologia em 1879 é uma convenção, antes houve a Psicofísica (ouça aqui).

Em outra frente, as Neurociências (sim, no plural, pois são muitas!) trilhavam um caminho diferente, mais focado na anatomia e fisiologia do sistema nervoso. Desde a antiguidade, médicos e anatomistas tentavam entender a estrutura do cérebro. Mas foi no século XIX, com o aprimoramento de técnicas de observação, que a área ganhou um impulso decisivo. 

Ouça um episódio sobre as origens das neurociências (ouça aqui)

Um dos nomes mais importantes aqui é o de Santiago Ramón y Cajal, um neurocientista espanhol. Usando uma técnica de coloração desenvolvida por Camillo Golgi, Cajal conseguiu visualizar neurônios individuais. Sua grande sacada foi provar que o cérebro não era uma rede contínua (como Golgi acreditava), mas sim que os neurônios eram unidades distintas que se comunicavam em pontos de contato – a famosa Doutrina do Neurônio. Essa descoberta foi fundamental, pois estabeleceu a base celular para o funcionamento do sistema nervoso, abrindo as portas para entender como o cérebro, fisicamente, gera a mente.

Domínio público, Fonte: Wikipedia

Fofoca: Golgi e Cajal não se bicavam…

Definições Claras: Comportamento vs. Funcionamento Cerebral

Para que não haja confusão, vamos a definições diretas e acessíveis:

  • A Psicologia é a ciência que estuda a mente e o comportamento (APA). Quando falamos em “mente”, nos referimos a todos os processos intelectuais e psicológicos de um organismo, como pensamento, emoções, aprendizado e memória. “Comportamento” são as ações observáveis de um ser vivo em resposta ao que acontece ao seu redor (estímulos externos) ou dentro de si mesmo (estímulos internos) – desde levantar o braço até sentir uma emoção como a tristeza. O foco da Psicologia é entender o porquê e como agimos e pensamos de certas maneiras, buscando as leis que governam essas ações e processos.
  • As Neurociências se referem ao estudo do sistema nervoso em si: o cérebro, a medula espinhal, os nervos e suas funções e interações (APA). O objetivo é entender o funcionamento desse sistema em níveis molecular, celular, sistêmico e comportamental. Em outras palavras, as Neurociências buscam compreender a base biológica, a “máquina” por trás da mente e do comportamento. Ela se pergunta: como os neurônios se comunicam? Que áreas do cérebro são ativadas quando sentimos medo?

Vou fazer uma simplificação didática: a Psicologia estuda o software (a mente, os processos cognitivos, o comportamento), e as Neurociências estudam o hardware (o cérebro, suas células, suas conexões). Ambas são essenciais para entender o computador completo que é o ser vivo, especialmente o ser humano.

Estudos Fundamentais: Marcos em Cada Campo

Ambas as áreas são ricas em descobertas que mudaram nossa forma de ver a nós mesmos. Vamos a alguns exemplos clássicos que ilustram seus focos e sua importância:

  1. Psicologia – Psicofísica (Weber e Fechner): Antes mesmo de Wundt, a Psicofísica, com nomes como Ernst Heinrich Weber e Gustav Theodor Fechner, já buscava quantificar a relação entre estímulos físicos e a percepção subjetiva. Fechner, por exemplo, formulou a Lei de Fechner, que mostra que a intensidade da sensação percebida não é linear à intensidade do estímulo físico. Isso foi revolucionário: pela primeira vez, a “mente” estava sendo medida matematicamente, dando o rigor científico necessário para a Psicologia. Pense no teste de audiometria: aquele som baixinho que você mal ouve é o seu limiar absoluto, um conceito da Psicofísica.
  2. Neurociências – Localização da Função (Broca e Wernicke): No século XIX, os médicos franceses Paul Broca e Carl Wernicke fizeram descobertas cruciais sobre a linguagem. Broca estudou um paciente que só conseguia dizer a palavra “Tan”² e, após sua morte, descobriu uma lesão em uma área específica do lobo frontal esquerdo (hoje conhecida como Área de Broca), ligando-a à produção da fala. Wernicke, por sua vez, identificou outra área (Área de Wernicke) relacionada à compreensão da linguagem. Esses estudos foram a primeira evidência robusta de que diferentes regiões do cérebro são especializadas em funções específicas. Como Eric Kandel, Nobel de Fisiologia ou Medicina, destaca que esses trabalhos foram a “base para a compreensão moderna da organização funcional do cérebro”.
  3. Psicologia – Behaviorismo (B.F. Skinner): No início do século XX, o Behaviorismo, impulsionado por John B. Watson e depois por B.F. Skinner, revolucionou a Psicologia ao focar no comportamento observável e mensurável. Skinner, por exemplo, desenvolveu o conceito de condicionamento operante, mostrando como as consequências de um comportamento (recompensas ou punições) moldam a probabilidade de ele se repetir. Sua pesquisa com “caixas de Skinner” e pombos demonstrou leis universais de aprendizagem, enfatizando o papel do ambiente na moldagem do comportamento.
  4. Neurociências – Neurotransmissores (Loewi e Dale): A comunicação entre os neurônios, que Cajal havia provado serem unidades separadas, era um mistério. Em 1921, Otto Loewi realizou o famoso “experimento dos corações de sapo”, mostrando que a comunicação entre nervos e órgãos era química, e não apenas elétrica. Mais tarde, Sir Henry Dale identificou a primeira substância química mensageira, a acetilcolina. Essa descoberta dos neurotransmissores (como dopamina, serotonina, noradrenalina) foi fundamental para entender como o cérebro funciona e como as emoções e o comportamento são regulados quimicamente, abrindo caminho para a psicofarmacologia.
By Scientific Animantions – Retirado de Wikipedia

Evolução e Desenvolvimento: Modernizando a Compreensão da Mente e do Cérebro

Tanto a Psicologia quanto as Neurociências se modernizaram com o avançar da tecnologia e dos tempos. 

A Psicologia, após o Behaviorismo, viu o surgimento da Psicologia Cognitiva nos anos 1950. Insatisfeitos com a exclusão da “mente” (pensamentos, memória, linguagem), pesquisadores começaram a comparar a mente humana a um computador, focando em como adquirimos, armazenamos, processamos e utilizamos informações. Essa área está em alta hoje, especialmente com o avanço das novas tecnologias e da Inteligência Artificial. Além disso, a Psicologia Clínica se expandiu enormemente, com diversas abordagens terapêuticas (como a Terapia Cognitivo-Comportamental – TCC, e a Psicanálise) buscando tratar o sofrimento mental.

Detalhe: Psicologia Cognitiva é diferente de Terapia Cognitiva.

As Neurociências também deram saltos gigantescos. A invenção de técnicas de neuroimagem, como a Ressonância Magnética Funcional (fMRI) e o Eletroencefalograma (EEG), revolucionou o estudo do cérebro. Agora, podemos “ver” o cérebro em funcionamento em tempo real, observando quais áreas se ativam durante uma tarefa de memória ou uma emoção. Isso nos permitiu mapear com muito mais precisão as funções cerebrais e entender como lesões ou transtornos afetam o funcionamento neural. A descoberta da neuroplasticidade – a capacidade do cérebro de se adaptar e reorganizar suas conexões em resposta a experiências, aprendizado ou lesões – é outro marco, mostrando que o cérebro não é estático, mas dinâmico e capaz de se reparar, o que tem implicações profundas para a reabilitação e a psicoterapia.

A união das áreas: o encontro da Mente com o Cérebro se Encontram

Hoje, a Psicologia e as Neurociências não são mais campos separados; elas se complementam e se interligam de forma crucial. Essa convergência é evidente em diversas áreas, mostrando a totalidade do ser humano:

  • Neurociência Cognitiva: Este é o campo que, talvez mais diretamente, une as duas áreas. Ele busca entender as bases neurais dos processos mentais (cognição), como percepção, memória, linguagem, atenção e pensamento. Por exemplo, estudos de neuroimagem podem mostrar como a Área de Broca e a Área de Wernicke (descobertas pela neurologia) trabalham juntas quando estamos falando ou compreendendo uma frase (foco da psicologia da linguagem).
  • Neuropsicologia: É a área que estuda a relação entre o cérebro e o comportamento, especialmente como lesões cerebrais, doenças neurológicas ou transtornos psiquiátricos afetam o funcionamento cognitivo e emocional. Um neuropsicólogo pode avaliar as dificuldades de memória de um paciente com Alzheimer e, com base no conhecimento da neurociência, propor estratégias de reabilitação.
  • Psicoterapia Baseada em Evidências: A prática clínica da Psicologia tem se beneficiado enormemente dos avanços da Neurociência. Sabemos, por exemplo, que a psicoterapia pode promover mudanças na estrutura e funcionamento cerebral (neuroplasticidade), alterando redes neurais associadas a transtornos como depressão e ansiedade. O trabalho de António Damásio sobre a “hipótese do marcador somático” (que as emoções guiam nossas decisões) é um exemplo de como a neurociência informa a psicologia, mostrando a interconexão entre emoção, corpo e tomada de decisão.
  • Inteligência Artificial e Mente/Cérebro: Atualmente, a IA se inspira nas redes neurais do cérebro para criar modelos mais eficazes de aprendizado e cognição. Ao mesmo tempo, a Psicologia e a Neurociência usam a IA como ferramenta para simular processos mentais e entender melhor o cérebro humano.

A Totalidade do Ser Humano

Como você leu aqui e vai aprender no podcast e nos textos do blog, a jornada da Psicologia e das Neurociências é complexa e se conecta diretamente. Em especial, podemos entender que o ser humano é um sistema integrado, complexo e confuso. Sim, confuso, quanto mais estudamos o cérebro e a mente, mais complicado fica de integrar tudo num corpo teórico coerente e coeso. 

Olha que confusão: não podemos entender a mente sem compreender o cérebro, e não podemos compreender o cérebro sem considerar como ele gera a mente e o comportamento em interação com o ambiente. E cada área se aprofunda mais e mais. 

O importante é que tanto a Psicologia, quanto as Neurociências se complementam de forma muito interessante para lidar com essa confusão. A Psicologia nos ajuda a entender a experiência subjetiva, os padrões de comportamento e as complexidades das emoções e pensamentos. As Neurociências, por sua vez, nos fornecem a base biológica, o “como” o cérebro realiza essas funções.

O que quero deixar claro é: a mente e o cérebro não são entidades separadas; são duas faces da mesma moeda, e a ciência continua a desvendá-las, passo a passo, em uma busca incessante pelo entendimento do ser humano.


Algumas Referências para aprender mais:

Origem e Breve História da Psicologia – blog Psicologia Catalão.

Episódio T01E01 – Psicofísica: Conexão Mente e Corpo. (Para entender as bases científicas da Psicologia).

Episódio T01E02 – Breve História da Psicologia. (Aprofunda a história e as abordagens da Psicologia).

Episódio T01E03 – Origem das Neurociências. (Detalha a história das Neurociências, incluindo Broca, Wernicke, Golgi e Cajal).

Kandel, E. R., Schwartz, J. H., Jessell, T. M., Siegelbaum, S. A., & Hudspeth, A. J. (2023). Princípios de Neurociências (6ª ed.). Artmed. (Uma das principais referências na área).


Psicologia Clínica na Prática

📘O curso é para você que está começando na clínica e busca uma base sólida, prática e ética.

📌Professor com ampla experiência profissional, clínica e didática.

💡 Conteúdo gravado, acesso vitalício, certificado e orientação direta do Dr. Bruno Marinho de Sousa:

Publicado por Bruno Marinho de Sousa

Doutor e Mestre pela USP, Especialista pela PUC, Psicólogo pela UFU.

2 comentários em “Origens da Psicologia e Neurociências: O entendimento da Mente e do Cérebro

Deixe um comentário